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Exposição em São Paulo mostra Pierre Verger inédito

O desafio de descobrir o povo e a cultura popular dos cinco continentes. Fotografar um cotidiano com a sua realidade entre crenças, sonhos, lutas e esperança. E, o mais importante, imprimir com o olhar o brio e as diferenças de cada ser humano com sua própria história. É esse legado do fotógrafo e etnólogo francês Pierre Fatumbi Verger (1902-1996) que é apresentado, a partir desta sexta-feira, dia 13, no Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo. A exposição Verger: Percursos e Memórias tem a parceria da Fundação Pierre Verger, de Salvador (BA), e da Fundação Bienal de São Paulo, sendo parte da rede da 34º Bienal de São Paulo.

Priscyla Gomes – Foto: Arquivo pessoal

A curadoria é de Priscyla Gomes, do Instituto Tomie Ohtake, e Alex Baradel, da Fundação Pierre Verger. Ambos “mergulharam” em fotos e documentos para organizar uma exposição inédita. O visitante vai poder acompanhar Verger nas principais viagens que marcaram a trajetória do fotógrafo e também do etnólogo, escritor, antropólogo, pesquisador e líder religioso.

“A exposição tem como traço fundamental seu ineditismo ao explorar a relação entre as fotografias e os documentos do acervo da Fundação Pierre Verger”, explica Priscyla, arquiteta, mestre e doutoranda da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. “O intuito desse enfoque é propiciar um encontro do público com um material que abrange correspondências, anotações, publicações, cadernos de viagem, textos e bonecos de livros não publicados, entre tantos outros itens. Essa relação imagem e texto é abordada através das suas viagens.”

Pierre Fatumbi Verger: Briki, Ifanhim, Dahomeyu, 1958 - Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Briki, Ifanhim, Dahomeyu, 1958 – Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Candomblé Joãozinho Da Gomea, Salvador, Brasil, 1946, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Candomblé Joãozinho Da Gomea, Salvador, Brasil, 1946, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger:  Festa da Ribeira, Salvador, Brasil, 1959, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Festa da Ribeira, Salvador, Brasil, 1959, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Feira de Santana, anos 50, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Feira de Santana, anos 50, Fundação Pierre Verger

A curadora avisa que, ao entrar na mostra, o público vai ter uma surpresa ao se deparar com essa relação. “O percurso através das fotografias traz imagens não muito familiares até para o público especializado. A outra surpresa é oferecida pelos documentos, que é uma forma de ressignificar algumas dessas imagens icônicas, podendo atrelá-las a diversas revistas de grande circulação.”

“Esta exposição é, sem dúvida, o evento que mais ‘mergulhou’ no acervo. Com a pesquisa, descobrimos documentos que abrem novas perspectivas no entendimento da vida e obra de Pierre Verger.”

O curador Alex Baradel é o responsável pelo acervo fotográfico da Fundação Pierre Verger, graduado em História da Arte e Cinema na Universidade de Paris 8, na França. “Há 20 anos, quase todos os dias, pesquiso as fotos de Verger. Penso que conheço bem o acervo, mas diante de cada projeto, de cada exposição, percebo que não conheço”, ele reconhece.

Alex Baradel – Foto: Arquivo pessoal

Viver a infinitude do acervo é o trabalho de Baradel, francês como Verger. “Sempre encontro novas imagens que tinha visto sem ver. É uma descoberta constante.” É exatamente essa sensação que o curador acredita que a mostra Pierre Verger: Percursos e Memórias desperta. “Esta exposição é, sem dúvida, o evento que mais ‘mergulhou’ no acervo. Com a pesquisa, descobrimos documentos que abrem novas perspectivas no entendimento da vida e obra de Pierre Verger. São mais de 300 itens apresentando aspectos importantes, sintetizados em sete viagens/módulos que trazem os principais assuntos da sua obra, tanto na questão fotográfica como na escrita.”

Os módulos seguem cronologicamente os percursos do fotógrafo pelo mundo: Polinésia, Ásia (China e Japão), África Ocidental, América Andina (Peru e Bolívia), Brasil (Nordeste), Dieux d’Afrique e Fluxo e Refluxo. “Esses dois últimos núcleos foram pautados por dois livros emblemáticos do fotógrafo, Dieux d’Afrique, de 1954, e Fluxo e Refluxo, de 1968”, destaca Priscyla Gomes, lembrando que Fluxo e Refluxo acaba de ser reeditado pela Companhia das Letras (leia o texto abaixo). “Cada núcleo possui uma vasta gama de materiais inéditos, como ampliações de época, correspondências nunca traduzidas e cadernos transcritos exclusivamente para a exposição, além do documentário Bresiliens d’Afrique, Africains du Bresil, com roteiro e produção de Pierre Verger. O filme, com raras exibições no Brasil, apresenta um percurso em rituais do candomblé baiano e africano, protagonizado por Balbino, pai de santo baiano e amigo pessoal de Verger.”

“O fotógrafo se coloca como um homem de seu tempo e, em outros momentos, como um homem à frente de seu tempo. A exposição nos dá bases para pensar a figura de Pierre Verger à luz de estudos contemporâneos.”

Verger: Percursos e Memórias traz a história de Pierre Edouard Leopold Verger, nascido em Paris no dia 2 de novembro de 1902. Quando tinha 30 anos, descobriu o ofício da fotografia e decidiu viajar buscando novos ângulos da vida e do mundo. Com uma Rolleiflex, perseguiu, durante décadas, paisagens e rostos. Viajou de bicicleta pela Espanha. Atravessou o Saara no dorso de um camelo. Percorreu os cinco continentes de barco, navio, a pé, de trem, ônibus. Foi procurando entender o cotidiano de diferentes países até se deixar levar, a partir de 1936, pelas culturas iorubás da África e do Novo Mundo. Um encantamento que o transformou em pesquisador. Verger observou os povos do Golfo de Benin e seus descendentes afro-brasileiros. Acabou mergulhando no mundo do candomblé. “Após ter visto tantos países, encontrou, em 1946, a sua calma em um lugar chamado Boa Terra”, descreve a professora Angela Lühning, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), coordenadora do Espaço Cultural da Fundação Pierre Verger. Esse era o nome da atual capital da Bahia, Salvador. “Costumava dizer que nessa terra encontrava também as lembranças da África. Verger foi iniciado no culto de Ifá. Em 1953, recebeu o nome de Fatumbi que quer dizer ‘nascido de novo graças ao Ifá’. Passou a ser conhecido como Pierre Fatumbi Verger.”

Pierre Fatumbi Verger: Samba, Salvador, Brasil, 1946 - 1953, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Samba, Salvador, Brasil, 1946 – 1953, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Doumé, Dahomey, anos 1950, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Doumé, Dahomey, anos 1950, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Mahon, Haute Volta, 1936, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Mahon, Haute Volta, 1936, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Rapa, Polinésia Francesa, 1933, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Rapa, Polinésia Francesa, 1933, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Candomblé, Cosme, Salvador Brasil, 1946 -1953, Fundação Pierre Verger
Pierre Fatumbi Verger: Candomblé, Cosme, Salvador Brasil, 1946 -1953, Fundação Pierre Verger

“A vastidão de documentos apresentados na exposição é uma oportunidade singular de tomar contato com a história do fotógrafo e seus percursos. É possível constatar, pelos documentos, uma passagem da condição de nômade, que tinha as viagens como fuga, para a condição de etnólogo, bastante envolvido com o estudo das religiões de matriz africana, principalmente o candomblé”, comenta a curadora Priscyla. “Aos poucos, quanto mais o fotógrafo se envolvia com as comunidades candomblés baianas e se lançava a investigar as relações com suas manifestações originárias na África Ocidental, ele passa por uma abdicação do registro fotográfico e maior envolvimento com a escrita. Os documentos ajudam a perceber esses movimentos e colocam a possibilidade de um revisionismo acerca dos estudos já veiculados sobre a produção de Verger.”

Priscyla Gomes observa que o olhar de Verger muda diante do grau de envolvimento com as comunidades e como a sua pesquisa ganha densidade. “O fotógrafo se coloca como um homem de seu tempo e, em outros momentos, como um homem à frente de seu tempo. A exposição nos dá base para pensar a figura de Pierre Verger à luz de estudos contemporâneos. Abre espaço para uma nova compreensão acerca do seu papel na história das comunidades.”

A exposição Verger: Percursos e Memórias, com curadoria de Priscyla Gomes e Alex Baradel, fica em cartaz até 21 de novembro, de terça-feira a domingo, das 12 às 17 horas, no Instituto Tomie Ohtake (Avenida Brigadeiro Faria Lima, 201, Pinheiros, em São Paulo – entrada pela Rua Coropés, 88). Grátis. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (11) 2245-1900.

Capa do livro lançado pela Editora Companhia das Letras” – Foto: Divulgação

O livro Fluxo e Refluxo: Do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benim e a Bahia de Todos-os-Santos, do Século XVII ao XIX, resultado de quase 20 anos de pesquisas de Pierre Verger, foi relançado pela Editora Companhia das Letras. A nova edição tem posfácio inédito do historiador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) João José Reis.

Fluxo e Refluxo foi apresentado originalmente como tese de doutorado de Pierre Verger na Sorbonne, em Paris, na França, em 1966. O livro foi lançado no Brasil em 1987, tornando-se um marco historiográfico e referência para os estudos do tráfico atlântico nos anos 1980.

“O ponto de partida de minhas pesquisas foi a cidade de Uidá, no Daomé (atual República Popular do Benim), onde encontrei, por acaso, um registro contendo 112 cópias de cartas enviadas no século 19 por um negreiro chamado José Francisco dos Santos, o Alfaiate, apelidado assim em função da profissão que exercera na Bahia antes de se estabelecer na costa africana”, esclarece Pierre Verger na apresentação do livro. “Esses documentos, redigidos com minúcia e frieza bem comerciais, desprovidos de qualquer sentimentalismo, testemunham que esse homem remetia fardos (escravos) marcados a ferro acima do umbigo ou sob o seio esquerdo, para seus fregueses da Bahia. Hoje em dia, submeter seres humanos a tal tratamento é no mínimo julgado um ato bárbaro e uma intolerável afronta à dignidade humana. Mas na época em questão essa prática não era em absoluto considerada ultrajante. Portanto, procurei evitar julgar, com uma mentalidade do século 20, ‘supostamente’ respeitosa da pessoa humana, comportamentos e fatos decorridos ao longo dos três séculos precedentes.”

Fluxo e Refluxo: Do Tráfico de Escravos entre o Golfo do Benim e a Bahia de Todos-os-Santos, do Século XVII ao XIX, de Pierre Verger, Companhia das Letras, 976 páginas, R$ 129,90

Por Jornal da USP

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