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Como a Europa se prepara para o turismo de verão em tempos de Covid-19

A cerca de duas semanas do início do verão no hemisfério Norte, a Europa começa a se abrir gradualmente para turistas na expectativa de recuperar parte dos imensos prejuízos econômicos causados pela pandemia do novo coronavírus. E, para salvar uma indústria de 1,5 trilhão de euros por ano, alguns países deixarão de exigir quarentena aos visitantes, oferecerão testes de Covid-19 e hotéis até investem em áreas “seguras” contra o vírus.

As regras para a dispensa da quarentena variam conforme os países. Contudo, elas não valem para indivíduos vindos de diversos locais. Por enquanto, a Itália abriu as portas apenas para visitantes da Europa, enquanto a Grécia vai aceitar a entrada sem restrições de turistas partindo de destinos presentes em uma lista oficial – que não inclui o Brasil – a partir de 15 de junho.

A Espanha deve começar a sua abertura em 1º de julho com turistas vindos de locais com baixos índices de infecção por Covid-19. A Áustria removeu a necessidade quarentena para todos os oito países vizinhos, com exceção da Itália. Já a Alemanha e Holanda anunciaram que vão retirar restrições a visitantes dos 27 países da União Europeia, mas o governo holandês excluiu a Suécia desse grupo.

Embora algumas restrições tenham sido eliminadas, os países da UE devem adotar outras medidas para evitar a propagação do vírus, como testes em amostragem e medição de temperatura corporal de turistas.

Em maio, a Comissão Europeia já havia definido as condições para a reabertura das fronteiras da UE. Entre os pré-requisitos estavam o controle da propagação do vírus no país anfitrião; capacidade do sistema de saúde para atender a população local e visitantes; monitoramento epidemiológico e rastreamento de infectados; medidas de higiene em estabelecimentos de turismo e treinamento de funcionários do setor de turismo sobre a Covid-19. Além de garantir o distanciamento social em áreas compartilhadas, por exemplo criando agendamentos para hóspedes utilizarem piscinas e academias.

No contexto da pandemia, neste verão europeu a preocupação de muitos turistas deixou de ser com quais praias ou regiões visitar e passou a ser qual destino oferece menos riscos de contágio pelo novo coronavírus. Logo, diversos países têm procurado reforçar a sua preocupação com a segurança dos visitantes.

“É essencial para a imagem italiana acabar com o mal-entendido de que é um país contagioso para a Europa. É o momento de redescoberta da natureza e das trilhas ao ar livre que requerem pequenos grupos. Também será o momento de tornar as experiências mais exclusivas acessíveis a todos, com as precauções necessárias”, afirma à BBC News Brasil Giorgio Palmucci, presidente da Agência Nacional de Turismo (Enit) da Itália, um dos países mais afetados pela Covid-19 no mundo.

A secretária de Turismo da Espanha, Isabel Oliver, reforça a mensagem. “Preparamos 21 guias de medidas higiênico-sanitárias para reduzir o contágio por coronavírus em toda a cadeia de valor turístico. Eles contêm especificações de serviço, limpeza e desinfecção, manutenção e gerenciamento de riscos para os diferentes subsetores de turismo”, explica a também presidente da Turespaña, órgão que divulga o país como destino turístico.

E a corrida para tranquilizar visitantes em potencial tem resultado em iniciativas curiosas. Na próspera província italiana de Tirol do Sul, o governador Arno Kompatscher afirmou que testes gratuitos (e não obrigatórios) de Covid-19 serão disponibilizados aos turistas. Além disso, hotéis devem ter setores “protegidos” contra o vírus, no qual medidas de distanciamento social seriam minimizadas.

Nas áreas “protegidas”, os funcionários terão que medir sua temperatura diariamente e passar por testes rápidos de anticorpos para garantir que estejam saudáveis. Um arranjo similar vale para os hóspedes desses espaços.

“O Tirol do Sul foi a primeira região da Europa a fechar seu setor de turismo devido à Covid-19 porque colocamos a saúde de nossos hóspedes primeiro. Agora, estabelecemos extensas medidas de segurança para acomodações, restaurantes, bares, etc”, diz à BBC News Brasil a IDM Südtirol, instituição oficial de turismo da região italiana.

Entre as medidas adotadas na província estão manter-se dois metros distante de estranhos em público ou usar máscaras; a mesma distância vale dentro de bares e restaurantes. Hotéis devem destinar ao menos 10 metros quadrados de espaço para cada hóspede em áreas comuns, piscinas e spas.

O Tirol do Sul, que registrava apenas 2598 casos de Covid-19 e 175 mortes até 5 de junho, é um destino popular para esqui e caminhadas em suas paisagens paradisíacas nos Alpes. E o cancelamento de parte da temporada de inverno teve “efeitos graves” na indústria do turismo, “com prejuízos financeiros para muitas empresas familiares”.

“Certamente esperamos recuperação durante o verão e o outono. Haverá uma ‘normalidade’ diferente para nós neste verão. Temos a sorte de ter tanto espaço e natureza nas montanhas, o que facilita muito o distanciamento social”, explica a IDM Südtirol.

Medidas de proteção

A Grécia, onde o turismo representa cerca de 20% do PIB e gera mais de 25% dos empregos, também aposta na promessa de segurança. O país foi bem-sucedido ao conter a propagação do vírus, impondo medidas rígidas de distanciamento social.

Durante o lockdown, os gregos só podiam deixar suas casas por algumas razões, como ir ao trabalho ou ao médico, e precisavam enviar uma mensagem de texto ao governo avisando quando sairiam.

Atenas registrou apenas 2,9 mil casos e 180 mortes, segundo a Universidade Johns Hopkins, até 5 de junho. Com isso, a partir de 15 de junho, turistas partindo de países com baixos níveis de infecção por Covid-19 poderão entrar na Grécia sem passar por quarentena ou testes – serão realizados apenas alguns exames para amostragem.

Turistas vindos de locais fora da lista oficial do governo precisam fazer exames obrigatórios na chegada ao país e ficar em quarentena (sete dias se o resultado for negativo e 14 dias em caso de positivo).

Para evitar novos focos de contaminação, a ordem básica aos turistas na UE é manter a distância física mínima de 1,5 metro para outras pessoas em locais públicos. Na Itália, praias privadas precisam seguir essa medida ao colocar guarda-sois para aluguel e ao prestar serviços como alimentação, no qual luvas são obrigatórias para funcionários e as filas precisam levar em conta o espaçamento entre os clientes.

O governo italiano baniu ainda reuniões nas praias e tornou obrigatória uma área mínima de 10 metros quadrados em torno de cada guarda-sol. Ao menos até 15 de junho, máscaras devem ser usadas no transporte e locais públicos. Visitantes não podem se recusar a divulgar suas informações em lojas ou restaurantes que as solicitarem, pois essa é uma medida para rastrear quem teve contato com indivíduos infectados.

“Não será possível recusar uma medição de febre. Com uma temperatura corporal de 37,5º C, o acesso a muitos locais públicos e privados é vetado”, explica Palmucci.

Na Espanha, apesar da dispensa de quarentena, haverá medição de temperatura e os visitantes preencherão questionários. O governo também definiu protocolos de distância física mínima de dois metros em áreas comuns em hotéis, bares, praias e piscinas.

Nas praias, os trabalhadores e socorristas devem lavar as mãos frequentemente e desinfetar espreguiçadeiras, guarda-sois, assentos e “móveis urbanos e instalações recreativas”. Esses itens precisam ficar quatro metros separados uns dos outros. Além disso, a quantidade de pessoas deve ser controlada e a distância social mantida “em todos os momentos”, ainda que seja necessário instalar elementos de subdivisão.

Nas piscinas, valem as mesmas regras de higiene e distanciamento. É necessário ainda ventilar o espaço, controlar o número de pessoas considerando o espaçamento de ao menos dois metros (incluindo em vestiários e chuveiros) entre os usuários, e manter funcionários para bloquear novas entradas quando a capacidade máxima for atingida.

Hotéis espanhóis também estão adotando medidas extras de proteção para atrair turistas. Uma clinica médica e hotel em Alicante, por exemplo, exige que futuros hóspedes apresentem um teste com resultado negativo para a covid-19 antes de irem ao estabelecimento. Os exames devem ser feitos nas 48 horas prévias à reserva.

Ao chegarem ao hotel, os hóspedes passam por mais um exame, teste de anticorpos e uma consulta médica – tudo incluído na estadia. Os funcionários também são testados com frequência.

Reforço na economia

A expectativa é que as medidas contra a propagação da Covid-19 convençam os turistas de que viajar pela Europa seria seguro neste momento. A existência de uma temporada de verão em si, algo que parecia improvável há poucas semanas, já é um alívio para países da UE.

O setor de turismo representa 9% de todos os empregos do bloco e parte relevante do PIB de países como Espanha (12%), França (8%) e Itália (13,2%). Desta forma, uma temporada bem-sucedida pode ajudar a suavizar o impacto econômico negativo da pandemia.

“Não temos previsões de quantos turistas virão, porque não sabemos como a demanda se comportará, mas sem dúvida a reativação da atividade turística é uma notícia muito boa para a economia espanhola devido à sua contribuição para o PIB e a manutenção do emprego”, diz Oliver.

Na Itália, a porcentagem de turistas estrangeiros e nacionais costuma ser quase igual. Neste ano, contudo, a expectativa é de maior turismo interno, em parte devido a restrições a visitantes vindos de fora da Europa. E isso deve ter um impacto negativo grande.

“Cidades como Roma, onde 85% da economia do turismo vem do exterior, dependem [desses viajantes]”, afirma Ivana Jelinic, presidente da Federação Italiana de Viagens e Associações Empresariais de Turismo (Fiavet).

Segundo a entidade, desde o início de 2020 até o final de abril, o volume total de chegadas aos aeroportos na Itália caiu 64,5% em comparação com o primeiro trimestre de 2019. “Dados da Enit indicam uma perda no turismo de 65 bilhões de euros até agora, e o mercado interno não será suficiente para cobrir esta situação no verão”, completa Jelinic.

Neste contexto, Palmucci acredita que a pandemia ao menos oferece ao setor a chance de corrigir problemas crônicos, como o excesso de turistas, e a oportunidade para investir em inovação e políticas de sustentabilidade: “Muitas realidades ligadas a fluxos excessivos de turistas têm a oportunidade de direcioná-los para áreas menos conhecidas. Sempre apoiamos distribuir os fluxos por diferentes períodos do ano e desenvolver a promoção de locais menos conhecidos.”

Por G1

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